Maria Bethânia chega aos 80 anos como referência da música brasileira

A presença de Maria Bethânia na música e na cultura brasileiras é marcante. Foi em 60 dos seus 80 de vida que a carreira da cantora se desenvolveu com grandes momentos, como quando saiu de Salvador, Bahia, para o Rio de Janeiro, enfrentar o desafio de substituir Nara Leão no Show do Opinião, em 1965.

O país estava sob a ditadura e o grupo do Teatro Arena de São Paulo se dispersou com a repressão da época. Foi quando a artista baiana subiu ao palco.

O dramaturgo Augusto Boal foi para o Rio e se integrou ao Centro Popular de Cultura da União Nacional de Estudantes (CPC da UNE) na intenção de criar um espetáculo em resposta à ditadura. Encontrou a resposta que desejava frequentando o restaurante Zicartola, um espaço político-cultural criado pelo compositor e cantor Cartola e pela esposa dele, Dona Zica.

No Zicartola, costumavam se reunir Zé Keti, Nara Leão e João do Vale, artistas do elenco original do Opinião, que estreou em dezembro de 1964. Entre as músicas estava Carcará, que marca a história de Maria Bethânia desde a estreia profissional da cantora..

Da jovem nascida Maria Bethânia Viana Telles Veloso, em 18 de junho de 1946, na cidade de Santo Amaro da Purificação, no recôncavo baiano, até os dias de hoje, foram muitas fases, sempre na busca do sentimento, de trazer as poesias, poemas e textos de grandes autores como Fernando Pessoa e Clarice Lispector, da preservação da cultura popular, do novo e de muita autonomia.

Três anos depois do Opinião, Bethânia já indicava que cabia a ela decidir o que queria cantar, se apresentando ao vivo na Boite Barroco, pequeno espaço musical em Copacabana. Fez a escolha do repertório com clássicos da MPB trazendo compositores como Noel Rosa, Tom Jobim, Torquato Neto, Gilberto Gil, Vinícius de Moraes, Assis Valente e Dorival Caymmi. Dali surgiu o disco Recital da Boite Barroco, até hoje aclamado.

Parceria

A parceria com o irmão Caetano Veloso veio muito cedo. Foi ele, aos 3 anos de idade, quem sugeriu e insistiu com os pais para que a menina se chamasse Maria Bethânia.

A escolha foi decidida em um sorteio. A mãe, dona Canô, disse que chegou a circular na família a versão de uma certa fraude no sorteio, que teria apenas esse nome, mas negou que isso tenha acontecido.

Várias foram as canções de autoria de Caetano feitas para a cantora ao longo da carreira dela. Não à toa o público se manifesta intensamente quando a voz de Bethânia interpreta, entre outras, Oração ao Tempo, Reconvexo e Gente.

Aliás, ter a autoria de uma música na voz de Maria Bethânia é um privilégio. A cantora, compositora e escritora Vanessa da Mata é uma dessas pessoas.

“Foi muito mais do que ver uma canção acender com ela. Tive uma letra que deu nome ao seu disco e ao seu show, e a considero a própria Força Que Nunca Seca!. Fui lançada pela mulher que é referência pra mim e que sinto admiração e respeito! Eu sentia a sua pulsação, sua busca pela vivacidade das palavras, da melodia, a busca pela energia vital pela qual precisamos sempre”, disse à Agência Brasil.

 

 

Na busca de Bethânia pelo novo na música, Vanessa lembrou que quando a conheceu, estava apenas começando, tinha poucas canções e nenhum disco.

Por nunca ter visto alguém da MPB se juntar a alguém que ainda não fosse um fenômeno de vendas, que não tivesse sido aprovado pela mídia ou pelo público, que não fosse parente ou amigo próximo, isso é mais um motivo para a compositora valorizar a amiga.

“Ela se arriscou muito em me apoiar, me indicar, me auxiliar com a sua vida inteira de trabalho, nome e respeitabilidade”, pontuou.

A artista mato-grossense diz que é só gratidão à Maria Bethânia, a quem considera uma madrinha.

“Quando eu tinha 21 anos, ela gravou uma letra minha e deu nome ao disco dela. Aos meus 23, ela chamou Caetano Veloso e me fez uma surpresa inesquecível de cantar com ele uma melodia e letra minhas. Sinceramente, eu nunca vi um começo como esse”.

Poeticamente, Vanessa enaltece a força das palavras nas interpretações de Bethânia.

“Eu fazia músicas imaginando a Bethânia cantando e mudava palavras que eu achava que ela mudaria. Encaixada conforme a sonoridade e a poesia para vesti-la melhor na sua voz. Como uma costureira, bordadeira, eu ia fazendo muitas canções, como lindos vestidos, que então, com ela, encantavam, adulavam, resplandeciam, enalteciam e acordavam todo o salão”.

Quando a presença de Bethânia passa de uma pessoa de quem se é fã para a proximidade de ter uma música gravada por ela, o sentimento aumenta. Foi o que ocorreu com o cantor e compositor Chico César, que entre os 8 anos e os 15 anos de idade trabalhou em uma loja de discos em Catolé do Rocha, no sertão da Paraíba. Lá, se encantava ao ouvir a voz e as mensagens que Bethânia passava por meio das músicas.

Para Chico César, era uma relação de reverência de uma criança que começava a trabalhar. Na lembrança dele ainda está muito viva a canção O Circo, do compositor baiano Batatinha.

“Sentia tudo muito forte, ainda mais quando ela cantava ‘Menos eu menos. Como vou pagar ingresso se não tenho nada. Fico de fora escutando a gargalhada’. Essa música me marcou muito e até hoje me marca. Esse sentimento de exclusão, essa coisa dela cantar pelo excluído, cantar a dor do excluído trazendo o excluído para o centro da ação. Acho isso lindo. Me contagiou e me contagia até hoje”, comentou à Agência Brasil.

 

Passado o tempo, o encontro presencial foi quando já começava a aparecer como o autor da música À Primeira Vista. Conforme contou, Bethânia o recebeu bem e pediu que enviasse umas músicas. “Mandei cinco músicas para ela que gravou duas no disco Âmbar: Onde Estará o Meu Amor e Invocação”, disse demonstrando felicidade.

“Assim foi se estabelecendo uma relação muito bonita do compositor com a intérprete. A maior intérprete da música brasileira sem sombra de dúvida. Estou falando de intérprete. É em outro lugar”, apontou.

A autonomia de Bethânia também é um destaque para Chico César. “Trabalhar com a indústria cultural sem ceder aos caprichos dessa indústria, fazendo o que a arte pede”, observou, acrescentando que depois dessas duas, ela gravou pelo menos mais dez músicas de sua composição.

Quando Bethânia quis fazer a encomenda de uma música com temática indígena, Chico disse que não tinha, mas que poderia indicar uma música. “Indiquei uma música do norte que fala de uma espécie de Romeu e Julieta indígena. Ela lembrou que essa música existia, ficou muito feliz, gravou e me agradeceu.”

“É uma relação de admiração, de respeito e de fraternidade. Sou muito grato à música brasileira pela existência de Maria Bethânia e por ela estar sempre aberta ao novo no tempo dela e não ao que está na modinha. Viva Maria Bethânia!”, finalizou.

Começar a conviver com a cantora também é razão de contentamento para o músico, cantor, arranjador e produtor musical Pretinho da Serrinha, que a conheceu quando fazia parte da banda do Prêmio da Música.

Depois disso, começou a dirigir o show de verão da Mangueira, do qual ela participou algumas vezes.

“Na sequência, fui convidado para gravar no álbum Mangueira, a Menina dos Meus Olhos e, só depois de tudo isso, fui chamado para fazer a turnê Claros Breus, interrompida pela pandemia. Por último, veio o memorável show Bethânia e Caetano”, afirmou à Agência Brasil.

A participação de Bethânia como última convidada do Batuke do Pretinho, roda de samba produzida por ele, que nesta temporada passou por Rio, São Paulo e Belo Horizonte, também é uma satisfação.

“Todo mundo sabe a força que ela carrega, mas posso dizer que, quando se está ao lado dela, no palco ou até mesmo fora dele, essa força é muito maior. É uma coisa inexplicável! Salve Maria Bethânia!!!!”, elogiou.

 

Homenagens

O cantor e compositor Carlinhos Brown disse em rede social que há vozes que atravessam o tempo, seguem ensinando, emocionando e iluminando caminhos geração após geração.

“Bethânia é dessas presenças raras. Sua palavra encontra abrigo na alma brasileira, sua arte nos acompanha pela vida e sua força continua inspirando quem tem o privilégio de escutá-la. Tenho profunda admiração por sua trajetória e pela mulher que você é”, mandou na mensagem que publicou no Instagram.

Em mais uma parceria, o cantor e compositor, Paulinho da Viola destacou que a amizade entre eles vem de longe, desde pouco tempo depois de a artista ter chegado ao Rio, em 65. Ele Comentou com carinho a temporada que fizeram na Europa nos anos 70.

 

 

“Tivemos oportunidade de uma viagem à Alemanha em 1972, passamos pela Noruega também. Fomos em um grupo, eu, Bethânia e o [grupo musical] Terra Trio. Estivemos também na Itália e foi um sucesso essa excursão. Depois estivemos várias vezes juntos”, relembrou à Agência Brasil.

“Acho que ela é uma das nossas maiores cantoras e é surpreendente, tive oportunidade de ver um show dela recentemente, e ela está cantando melhor ainda. Mando um grande abraço para ela pelo aniversário e que ela continue por muitos anos fazendo a alegria da gente e mostrando o que é ser uma cantora e uma grande artista”, disse o artista.

Agora no dia 8 de agosto, vão fazer uma nova parceria. Paulinho a convidou para participar do show que vai fazer no Festival Doce Maravilha, no Rio de Janeiro. “Eu fiquei muito feliz e honrado quando você aceitou o meu convite”, disse em uma mensagem para a cantora.

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