A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima (SMAC) do Rio de Janeiro lançou nesta quinta-feira (19) um painel digital para atualizar a população sobre o plantio de árvores na cidade.
Instalado em Copacabana, na zona sul da capital fluminense, o mostrador inclui uma série histórica iniciada em 2023 e somava 386.475 plantios durante o evento de lançamento.
De acordo com a SMAC, a ferramenta tem como objetivo transformar o cidadão em fiscal e parceiro, garantindo transparência às iniciativas de arborização da cidade.
No lançamento do contador, a secretária de Meio Ambiente e Clima, Tainá de Paula, informou que outros painéis serão instalados em mais pontos da cidade.
“Essa ferramenta é muito importante, que garante não só a proximidade do cidadão com as novas árvores que estão sendo implantadas na cidade, mas também uma tranquilidade de que há aplicação de uma política ambiental”, disse.
Tainá de Paula acrescentou que as árvores são aliadas em meio à crise climática, que traz altas temperaturas, chuvas intensas e enchentes. A arborização ajuda a mitigar os efeitos do calor e a conter encostas, evitando deslizamentos por conta das chuvas.
“É visível para o carioca que algo não está normal [no clima]. Parte da nossa tarefa de compensar os desmatamentos é garantir que o nosso meio ambiente consiga se equilibrar, tanto no índice de chuva quanto nas nossas temperaturas”, disse a secretária.
Em janeiro, o estado do Rio de Janeiro registrou mais de 2 mil atendimentos médicos devido às ondas de calor.
O lançamento do painel ocorre dois dias após o Rio de Janeiro ser reconhecido pela Arbor Day Foundation e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como uma das 283 Cidades Árvore do Mundo de 2025. O selo é concedido a municípios que cumprem padrões rigorosos de gestão, legislação e cuidado com o patrimônio arbóreo.
Metas da cidade
A meta da cidade do Rio de Janeiro é plantar 200 mil árvores entre 2026 e 2028. Para isso, foi instituído, em dezembro de 2025, programa Planta+RIO, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima (SMAC), que tem o objetivo de ampliar a cobertura vegetal de áreas públicas do município com espécies nativas da Mata Atlântica.
A ideia é priorizar áreas com menor cobertura e mais afetadas pela crise climática, como as zonas norte e oeste da cidade.
“Ao analisarmos o histórico das temperaturas de superfície dos últimos dez anos, cruzando esses dados com o déficit de árvores, identificamos que as zonas norte e oeste apresentam os maiores índices de calor urbano”, afirmou Tainá de Paula à Agência Brasil.
De acordo com dados levantados pela SMAC, quatro em cada dez moradores do município vivem em ruas sem nenhuma árvore, e cerca de 38% das ruas da cidade também não são arborizadas. Uma porcentagem maior que a média nacional, e que se agrava em determinadas áreas.
Nos bairros da zona norte, considerada o ponto mais crítico da insuficiência arbórea, a diferença de temperatura pode chegar a 11°C em relação à zona sul, classificada como a mais arborizada da cidade, que abriga bairros como Jardim Botânico, Humaitá e Ipanema.
Partes das zonas oeste e sudoeste também estão no radar de atenção do serviço, que vai priorizar áreas como calçadas, praças e parques comunitários.
Com o Planta+RIO, a SMAC, em parceria com a Fundação Parques e Jardins (FPJ), diz que espera reposicionar a arborização urbana como componente central da política ambiental, priorizando áreas socialmente mais vulneráveis.
Impactos sociais
De acordo com o doutor em Ciências Atmosféricas e coordenador do Comitê de Mudanças Climáticas da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Andrews Lucena, a cobertura vegetal se tornou uma moeda de troca no mercado imobiliário ─ áreas mais arborizadas valem mais ─ e isso agrava a segregação de espaços urbanos.
“Neste contexto, pobres e pretos estão confinados nos espaços mais injustos, seja pela ausência de moradia digna, infraestrutura, serviços, como também pela ausência de um clima relativamente mais favorável, com baixo estresse ao calor, por exemplo”, diz.
Nascido no bairro de Guadalupe, na zona norte da cidade, Guilherme Campos tem 27 anos e, há cinco, se mudou para Botafogo. Ele conta que a percepção das temperaturas é completamente diferente.
“Nenhum bairro da cidade está preparado para todo esse calor. É claro que uns estão mais à frente que outros, mas algo precisa ser feito, porque, ano após ano, o calor está aumentando e não vemos a cidade melhorar na mesma velocidade”, ele diz.
Para ele, além do plantio de mudas e planejamento de longo prazo, são necessárias também medidas mais imediatas e outras obras de infraestrutura.
“Árvores são patrimônios, e a solução deveria ser o cabeamento dos fios de forma subterrânea, como já é feito na maior parte da zona sul. Com esse tipo de melhoria, preservamos melhor nossas árvores, o que ajuda muito na temperatura dos bairros e da cidade, além de evitar ainda mais a falta de energia em períodos de chuvas intensas e quedas de árvores”, completa.
Para a estudante Ester Benitz, de 22 anos, a sensação é de que o poder público não se importa com aqueles que vêm da zona norte. Moradora de Irajá, um dos bairros mais quentes da cidade, ela também frequenta a Urca, onde cursa Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
“Eu tenho até medo, porque Irajá tem ficado cada vez mais quente, e levantado cada vez mais prédios com o passar do tempo. Eu moro numa rua onde as duas árvores foram plantadas pelos moradores, então, realmente é um reflexo do abandono público”, aponta.
Participação social
Para estimular a participação da sociedade, o programa Planta+RIO também permite que os próprios moradores entrem em contato com a SMAC para solicitar o plantio de mudas em seus bairros e ruas. As solicitações podem ser feitas através da Central 1746: WhatsApp 1746 (21 3460-1746), site 1746 (www.1746.rio) e telefone 1746, ou pelo aplicativo do 1746.
Segundo a Prefeitura, o número de solicitações é de cerca de 1 mil por ano. Com a estruturação do serviço, o objetivo é ampliar as solicitações dos moradores para 4 ou 5 mil.
Para a Secretária, o objetivo é tratar arborização como política de saúde pública e justiça climática.
“O Planta+Rio é o coração dessa mudança ao introduzir também uma dimensão de educação ambiental já que quando o morador solicita o plantio via 1746, ele assume um pacto de cuidado com a árvore, garantindo a sua sobrevivência e o sentimento de pertencimento local”, completou.
Desde a inauguração do programa, cinco bairros lideram o ranking de solicitações:
- Tijuca: 140
- Campo Grande: 126
- Botafogo: 82
- Copacabana: 79
- Méier: 68
*Estagiária sob supervisão da jornalista Mariana Tokarnia.